Uma proposta para prolongar a disponibilidade de energia solar através de enormes espelhos colocados em órbita está a gerar preocupação entre astrónomos e especialistas em vida selvagem. Um novo estudo preliminar sugere que a tecnologia da Reflect Orbital poderá iluminar o céu noturno com uma intensidade superior à inicialmente prevista, chegando a níveis comparáveis aos de uma Lua cheia.
A Reflect Orbital, empresa tecnológica sediada na Califórnia, pretende combinar infraestruturas espaciais e terrestres para refletir luz solar em direção a grandes painéis fotovoltaicos instalados na superfície da Terra.
Reflect Orbital quer instalar milhares de espelhos em órbita
O projeto recebeu autorização da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) para lançar um satélite experimental capaz de refletir radiação solar para a Terra sempre que necessário.
A tecnologia baseia-se numa futura constelação de satélites em órbita baixa, cada um equipado com grandes superfícies refletoras. A empresa pretende desenvolver uma rede de até 50 mil satélites com espelhos, procurando aumentar o aproveitamento da energia solar e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
“O problema é que a energia solar não está disponível quando realmente precisamos dela”, afirmou Ben Nowack, diretor executivo da Reflect Orbital, durante uma conferência internacional dedicada à energia espacial, em Londres.
Satélite experimental terá um espelho de 18 metros
O veículo de teste Earendil-1 deverá utilizar um espelho com cerca de 18 metros de diâmetro em órbita baixa da Terra.
Segundo os planos apresentados, o equipamento deverá projetar sobre a superfície terrestre um feixe de luz solar refletida com aproximadamente 4,83 quilómetros de largura.
A Reflect Orbital compara o aumento da iluminação noturna proporcionado pelo sistema a um “brilho suave, semelhante ao da Lua”. No entanto, investigadores alertam que o impacto real poderá ser consideravelmente mais intenso.
Astrónomos alertam para aumento da poluição luminosa
A autorização concedida pela FCC para o lançamento do Earendil-1 desencadeou críticas por parte de astrónomos e especialistas ambientais.
A Sociedade Astronómica Americana (AAS) manifestou formalmente a sua oposição à concessão da licença, apontando vários riscos associados ao projeto.
Entre as principais preocupações estão o aumento da poluição luminosa, potenciais riscos para a visão de astrónomos amadores e possíveis distrações para pilotos de aeronaves.
A organização alertou ainda para as consequências sobre observatórios financiados com recursos públicos. Caso a luminosidade artificial prejudique as observações astronómicas, telescópios e outras infraestruturas científicas poderão perder parte da sua eficácia.
Para a astronomia, a preservação de céus escuros é particularmente importante, uma vez que a observação de objetos distantes e pouco luminosos depende de condições com níveis mínimos de iluminação artificial.
Luz artificial poderá afetar animais noturnos
Especialistas em vida selvagem também manifestaram preocupação com os possíveis efeitos ambientais da tecnologia.
A DarkSky International, que também se opõe ao projeto, considera que a introdução de luz artificial proveniente do espaço poderá representar um novo e significativo fator de pressão sobre os ecossistemas noturnos.
Investigações anteriores indicam que mesmo pequenas quantidades de iluminação artificial durante a noite podem alterar comportamentos naturais de centenas de espécies.
Entre os potenciais impactos encontram-se perturbações na orientação, migração, alimentação e reprodução de animais que dependem dos ciclos naturais entre luz e escuridão.
Estudo aponta para brilho semelhante ao de uma Lua cheia
Um novo artigo científico disponibilizado no arXiv, arquivo aberto de trabalhos académicos preliminares, analisou a quantidade de luz que os espelhos espaciais poderão produzir.
O estudo resulta de uma colaboração entre investigadores da Academia Eslovaca de Ciências e do Departamento de Astrofísica da Universidade de Princeton.
Os cientistas modelaram o brilho do céu para observadores localizados tanto dentro como fora da área diretamente iluminada.
Os resultados preliminares indicam que a luminosidade poderá atingir níveis comparáveis aos de uma Lua cheia, levantando novas questões sobre o impacto de grandes constelações de satélites refletores.
Iluminação contínua exigiria milhares de satélites
Os satélites em órbita baixa deslocam-se rapidamente pelo céu, o que significa que um único equipamento apenas conseguiria iluminar determinada região durante períodos relativamente curtos.
De acordo com o estudo, seria necessária uma constelação composta por milhares de satélites para garantir iluminação contínua numa determinada área.
Os resultados continuam a ser preliminares, uma vez que o trabalho ainda não passou pelo processo completo de revisão por pares. Ainda assim, as conclusões reforçam o debate sobre a necessidade de avaliar os impactos científicos e ambientais antes da implantação de grandes redes de espelhos espaciais.
A proposta da Reflect Orbital procura resolver uma das principais limitações da energia solar: a ausência de produção durante a noite. Contudo, o potencial aumento da poluição luminosa e os possíveis efeitos sobre a astronomia e os ecossistemas mostram que levar luz solar à noite poderá trazer consequências que vão muito além do setor energético.

Tomás Azevedo é autor no Barcelos na Net, cobrindo notícias, política, negócios, tecnologia, desporto, entretenimento e estilo de vida. Procura apresentar informação clara, atual e relevante, ajudando os leitores a compreender os acontecimentos e tendências que influenciam a sociedade e o quotidiano.

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