Novo estudo aponta o fígado como peça-chave da “bússola interna” das aves
Durante décadas, os cientistas tentaram compreender como certas espécies conseguem orientar-se ao longo de milhares de quilómetros sem recorrer a mapas ou tecnologia. Agora, uma nova investigação alemã sugere que os pombos utilizam sensores magnéticos presentes no fígado para detectar o campo magnético da Terra, uma descoberta que poderá ajudar a desvendar um dos maiores mistérios da biologia animal.
O estudo, publicado na revista científica Science, indica que células do sistema imunitário localizadas no fígado destas aves desempenham um papel essencial na chamada magnetorrecepção — a capacidade de perceber os campos magnéticos do planeta e utilizá-los na navegação.
A misteriosa bússola natural dos animais
Pombos, tartarugas marinhas, morcegos, baleias e até algumas espécies de insectos conseguem orientar-se graças ao magnetismo terrestre. Esta capacidade permite-lhes realizar migrações impressionantes e regressar aos locais de origem com grande precisão.
O campo magnético da Terra resulta do movimento de metais líquidos, como ferro e níquel, no núcleo do planeta. Esse fenómeno cria uma espécie de escudo invisível que protege a Terra da radiação cósmica e, ao mesmo tempo, fornece pistas de orientação a vários animais.
Desde o século XIX que os investigadores suspeitam de que as aves utilizam este mecanismo natural para navegar. Experiências realizadas nos anos 1960 já tinham demonstrado que piscos criados em cativeiro alteravam o seu comportamento quando expostos a campos magnéticos artificiais.
Apesar disso, permanecia por esclarecer exactamente onde se encontrava esta “bússola biológica” e de que forma funcionava.
Descoberta inesperada no fígado dos pombos
A equipa liderada por cientistas do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha, acredita agora ter encontrado uma resposta plausível.
Os investigadores analisaram diferentes órgãos de pombos, incluindo os olhos, o cérebro, o bico, o baço e o fígado. Foi neste último que encontraram grandes concentrações de macrófagos — células imunitárias capazes de acumular ferro após absorverem glóbulos vermelhos envelhecidos.
Segundo os autores do estudo, estas células estavam localizadas junto de fibras nervosas, o que sugere uma possível comunicação entre ambas.
Martin Wikelski, director do instituto e coautor da investigação, considera que esta poderá ser a explicação mais convincente até agora para o fenómeno. “O sentido do magnetismo foi um mistério durante um século”, afirmou o investigador.
Experiências com pombos na Alemanha
Testes em voo revelaram dificuldades de orientação
Para testar a teoria, os cientistas realizaram experiências com 34 pombos treinados para percorrer uma rota de cerca de 19 quilómetros numa zona rural próxima dos Alpes alemães.
Os resultados mostraram diferenças claras no comportamento das aves quando os macrófagos do fígado foram desactivados.
Em dias de céu limpo, os pombos conseguiram regressar normalmente a casa. No entanto, quando o céu estava encoberto e o Sol deixava de servir como referência visual, as aves com os macrófagos afectados tiveram dificuldades em orientar-se.
Os investigadores concluem que os pombos parecem combinar sinais visuais e magnéticos durante a navegação. Quando a luz solar desaparece, o campo magnético da Terra torna-se particularmente importante para encontrar o caminho.
Debate científico continua em aberto
Apesar da relevância da descoberta, vários especialistas defendem que ainda existem questões importantes por responder.
Os cientistas querem agora compreender exactamente como os macrófagos detectam o magnetismo terrestre e de que forma essa informação é transmitida ao cérebro das aves.
Thorsten Ritz, biofísico da Universidade da Califórnia, que não participou no estudo, considera que a hipótese é credível. No entanto, lembra que outras investigações sugerem que certas aves também conseguem detectar o campo magnético através de moléculas sensíveis à luz presentes nos olhos.
Para Ritz, é possível que diferentes mecanismos coexistam. “Existem quase sempre várias soluções evolutivas para resolver o mesmo problema”, explicou.
Num comentário complementar publicado igualmente na revista Science, outros investigadores defendem que diferentes sistemas poderão ser utilizados consoante o tipo de navegação — desde percursos de longa distância até à localização de destinos específicos.
Uma descoberta que pode mudar a compreensão da navegação animal
A nova investigação representa um passo importante na tentativa de compreender como os animais interagem com forças invisíveis do planeta.
Embora ainda existam lacunas por esclarecer, o estudo reforça a ideia de que o sistema imunitário poderá desempenhar funções muito mais complexas do que se pensava anteriormente.
Para os cientistas, a descoberta abre também caminho a novas investigações sobre outras espécies migratórias e sobre a possibilidade de existirem múltiplas formas de interpretar o magnetismo da Terra.

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