Num momento em que a exploração espacial volta a ganhar protagonismo, com missões como a Artemis II, cresce também o debate sobre o impacto dessas viagens na forma como a humanidade se vê a si própria. O teólogo e filósofo Leonardo Boff reflete sobre essa questão, argumentando que, apesar dos avanços tecnológicos, a consciência planetária continua longe de se afirmar.
A persistência do modelo dos Estados-nação
As múltiplas missões espaciais — incluindo as seis viagens tripuladas à Lua e outras que ultrapassaram os limites do sistema solar — não foram suficientes para provocar uma mudança profunda na mentalidade global.
Segundo Boff, a organização política do mundo permanece ancorada no modelo dos Estados-nação, definido desde o Tratado de Westfália. Este sistema, baseado em fronteiras rígidas, continua a orientar decisões políticas e económicas.
Mesmo fenómenos globais recentes, como a pandemia de Covid-19, que ignoraram completamente as fronteiras nacionais, não produziram mudanças estruturais. Pelo contrário, o modelo económico dominante — marcado pelo consumismo e pela exploração intensiva dos recursos naturais — regressou com ainda mais intensidade.
Guerras territoriais e a ausência de visão global
O cenário geopolítico atual continua marcado por conflitos territoriais, como os que envolvem a Ucrânia ou a Faixa de Gaza. Para Boff, estas disputas revelam a incapacidade de adotar uma perspetiva verdadeiramente global.
A partir do espaço, essa realidade parece ainda mais absurda. Um dos astronautas da missão Artemis II terá observado: “daqui de cima somos um só povo”. A frase sintetiza uma perceção recorrente entre quem vê a Terra do exterior.
Boff critica duramente líderes como Benjamin Netanyahu e Donald Trump, acusando-os de ignorar essa unidade fundamental da humanidade.
O “efeito visão global” dos astronautas
Desde a primeira alunagem, em 1969, os testemunhos de astronautas têm reforçado a ideia de uma Terra pequena, frágil e interdependente.
Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, descreveu o planeta como uma “pequena e bela esfera azul” que podia ser ocultada com o polegar.
Outros astronautas partilharam perceções semelhantes. Russell Schweickart destacou que toda a experiência humana — história, emoções, vida e morte — está concentrada nesse pequeno ponto no espaço.
Já Gene Cernan, o último homem a caminhar na Lua, descreveu a visão da Terra como algo tão harmonioso que parecia impossível ser fruto do acaso.
Por sua vez, Sigmund Jähn sublinhou que as fronteiras políticas deixam de fazer sentido quando vistas do espaço, reforçando a ideia de responsabilidade coletiva pelo equilíbrio do planeta.
Estas reflexões foram reunidas por Frank White, que cunhou o conceito de “Overview Effect” para descrever essa mudança de perceção.
Filosofia e ciência: a Terra como bem comum
A ideia de uma humanidade unificada não é nova. O filósofo Immanuel Kant já defendia, no século XVIII, na obra A Paz Perpétua, que a Terra pertence a toda a humanidade e deve ser considerada um bem comum.
Mais recentemente, o escritor e cientista Isaac Asimov retomou essa visão ao refletir sobre a Era Espacial. Num artigo publicado no New York Times, destacou o “globalismo” como o principal legado do lançamento do Sputnik 1 em 1957.
Segundo Asimov, a observação da Terra a partir do espaço revela-a como uma entidade única. Satélites permitem acompanhar fenómenos globais — como tempestades e alterações climáticas — de forma integrada, enquanto os meios de comunicação interligam toda a humanidade.
Entre o localismo e o globalismo
Asimov alertava para uma escolha decisiva: persistir no “localismo”, centrado nas nações, ou avançar para o “globalismo”, baseado na cooperação planetária.
Para o autor, o localismo pode conduzir à destruição, enquanto o globalismo abre caminho a uma civilização mais avançada, flexível e sustentável.
No entanto, Boff observa que a realidade atual segue o caminho oposto. O nacionalismo tem vindo a ganhar força, muitas vezes acompanhado por tendências autoritárias, dificultando a construção de soluções globais para problemas comuns.
Um futuro ainda em aberto
Apesar deste cenário, Leonardo Boff mantém uma perspetiva de esperança. Para o pensador, a verdade de uma humanidade interligada acabará por prevalecer sobre as divisões políticas e ideológicas.
A visão da Terra como “Casa Comum” — conceito também relevante no debate europeu sobre sustentabilidade e transição ecológica — poderá, a longo prazo, impor-se como paradigma dominante.
Num mundo cada vez mais interdependente, a consciência planetária continua a ser não apenas uma possibilidade, mas uma necessidade urgente.

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