ICMBio participa de expedição ao Pico da Neblina

ICMBio participa de expedição ao Pico da Neblina1 (Cópia)

Já imaginou entrar na floresta amazônica em companhia de povos originários detentores de culturas e saberes únicos? E o que acha de percorrer caminhos ancestrais do Povo Yanomami, seguindo suas trilhas de migração pelas serras que dão acesso ao cume do Pico da Neblina? Pois foi exatamente isso o que fizeram representantes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Fundação Nacional do Índio (Funai), Exército e Instituto Socioambiental (ISA).

Eles participaram da expedição Yaripo (menção à “Serra dos Ventos”, nome dado ao Pico da Neblina pelos yanomami), que partiu de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, no dia 13 de julho, juntamente com um grupo de 20 indígenas, e percorreu as trilhas que dão acesso ao cume da maior montanha brasileira. O objetivo foi fazer um etnomapeamento do Povo Yanomami. Os dados serão usados em ações de gestão da Terra Indígena e do Parque Nacional do Pico da Neblina, gerido pelo ICMBio, no Amazonas.

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Ao longo da caminhada pela selva, que durou dez dias, foram visitados os antigos locais de morada do Povo Yanomami e muitos pontos históricos que registram o passado dessa etnia na ocupação daquele território: antigas áreas de conflitos com tribos rivais, locais de abastecimento onde obtinham comida, pontos de passagem e abrigo, lagoas e locais especiais que detém histórias místicas da convivência desse povo com seus hekura (espíritos).

A caravana, que contou com a participação do procurador da República no Estado do Amazonas Fernando Merloto Soave, seguiu até o cume em companhia de representantes da Associação Yanomami do Rio Cauburis e seus Afluentes (Ayrca) e da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayõma. Houve ainda participação e proteção espiritual do xabori Carlos (pajé), que nasceu e cresceu naquelas localidades e que é detentor dos saberes e histórias ali passadas. Pela primeira vez, uma mulher yanomami, Maria, atingiu o alto da montanha sagrada.

Histórias sobrenaturais

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“Ouvimos histórias sobrenaturais da vivência desse povo em seu território de ocupação tradicional, sobre seus hábitos de vida, locais de morada; mas também descobrimos que muitas guerras ocorreram por lá, das antigas epidemias de coqueluche que os assolaram após o contato com os napë (homens brancos) e de suas estratégias de sobrevivência ao se isolarem das enfermidades buscando as terras mais altas e frias nas imediações do Yaripo”, relatou Flavio Bocarde, analista ambiental do ICMBio e chefe do Parque Nacional do Pico da Neblina.

Segundo ele, a expedição foi uma verdadeira viagem no tempo. “Tivemos a honra de fazer parte e estimular esse contato entre mundos tão distintos, dos jovens dessa etnia que frequentam o mesmo local aliciados pela atividade do garimpo, com o mundo dos velhos detentores de saberes e histórias tão condenados ao esquecimento pela erosão cultural de nossa civilização ocidental”, comentou Bocarde.

Ainda segundo o analista do ICMBio, todos os conhecimentos obtidos durante a campanha farão parte dos instrumentos de gestão territorial em construção para a Terra Indígena e o Parque Nacional Pico da Neblina.

Ordenamento da visitação

Bocarde ressaltou que os conhecimentos obtidos durante a expedição estão associado ao processo de ordenamento da visitação ao Pico da Neblina, trabalho conduzido pela equipe do parque nacional desde 2013, em parceria com a Funai e, mais recentemente, com o Exército, ISA e Secretaria de Meio Ambiente e Turismo de São Gabriel da Cachoeira.

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A iniciativa, prosseguiu Bocarde, está alinhada aos eixos 1, 3, 4, 5 e 7 da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas (PNGATI, Decreto nº7747, de 05/06/2012) que prevê a necessidade de geração de instrumentos conjuntos de gestão territorial para áreas sobrepostas, o incentivo a práticas sustentáveis para geração de renda e a substituição de atividades danosas ao meio ambiente e aos modos de vida tradicionais, no caso o garimpo.

Projeto de ecoturismo

De acordo com o chefe do parque, a iniciativa colabora, também, para o Projeto Ecoturismo Yaripo, que, segundo definição dada pelos próprios indígenas e traduzida para o português, terá com objetivo geral melhorar a qualidade de vida dos Yanomami da região do rio Cauaburis e afluentes por meio da promoção do turismo de base comunitária e mostrar ao Brasil e ao mundo que o Pico da Neblina é um lugar sagrado para o Povo Yanomami.

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Entre os objetivos específicos do projeto, estão a geração de renda, garantindo a repartição justa dos benefícios entre os Yanomami da região; a proteção da Urihi (a Terra-Floresta Yanomami), apresentando o ecoturismo ao Yaripo como alternativa ao garimpo de ouro; o fortalecimento da cultura yanomami, incentivando os jovens no aprendizado dos conhecimentos tradicionais necessários para subir o Yaripo e para compartilhar com os turistas histórias, músicas, culinária, artesanato e demais saberes dos Yanomami; e, por fim, o protagonismo dos Yanomami na gestão do ecoturismo por meio do fortalecimento de suas associações Ayrca e Kumirayõma.

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Bocarde explicou que a implementação do projeto se dará de forma experimental, com base em estratégias de monitoramento direcionadas ao manejo adaptativo de modo que essa experiência inovadora de gestão compartilhada de territórios em regime de sobreposição seja incorporada ao plano de manejo do Parque Nacional do Pico da Neblina e ao Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Yanomami.