SobreViver em tempos de catástrofes

SobreViver em tempos de catástrofes
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No tempo das catástrofes.

Foto: Ciro Miguel

Em 2009, quando a filosofa belga, Isabelle Stengers publicou seu livro “No Tempo das Catástrofes” intuitivamente, ou não, ela estava prevendo um período de turbulência, para não ser tão dramático, em nossas vidas. Particularmente, tenho boas memórias nesse ano. Acabara de conquistar minha autonomia financeira. Mas cada um (você leitor) deve ter algo a lembrar dessa época, eram outros tempos. Bons ou ruins, mas eram tempo diferentes dos de hoje, e certamente os de amanhã.

O fato é que, hoje, o tempo em que vivemos, leva justamento o nosso nome, para o bem ou não.

Não sei se a palavra antropoceno, é de conhecimento de todos, mas penso que se você ainda não ouviu falar dele, está no momento de ficar a par dos últimos acontecimentos que levaram, pelos menos os cientistas, a cunhar esse termo. Quem diga o geólogo Paul Crutzen e seus colegas.

Para isso é preciso voltar um pouco na história (ressalto que essa delimitação temporal é feita a partir de sua filiação teórica) até a chamada Revolução Neolítica, a mais ou menos 12 mil anos atrás. Nesse período, estudos mostram que algo de inovador havia sido criado, senão, aperfeiçoado, trata-se das técnicas de domesticação dos animais e plantas. Mas o que isso têm de importante eu saber?

Pense na seguinte situação: caça, existia, frutas, existiam, ambientes a serem explorados e permeados de perigos, existiam, afinal de contas, não existia uma multidão de 7,5 bilhões de gente, aproximadamente, vivendo e andando por ai. Ou seja, os perigos eram reais, então o mais “lógico” a ser feito, era tentar se manter no mesmo local, por um tempo maior que antigamente. Isso faria com que deixasse de ser um ser errante, nômade, e assim fixar endereço. Mas para isso era necessário manter comida e abrigo por perto, e como nesse momento, as caças viviam por perto, o processo de doma, foi facilitado.

É importante lembrar que nesse momento as bases de nossas atuais formas de relação com a flora e fauna foi criada, e com ela a consideração de uns e desconsideração de outros. Enquanto uns passaram a ser fonte de nutrientes, outros tornaram-se seres de companhia, já contra outros foi decretada uma guerra. Irei fugir um pouco do contexto para afirmar que nesse como em qualquer guerra, só existem perdedores. Mas o fato é que alguns deixaram ser vencidos, talvez pelo cansaço, galinha, cachorro, gato, enquanto outros foram hoje, o que Jonh Connor chamaria de “resistência”, seriam eles, os ratos, baratas e todos aqueles que são objetos de ogeriza de muitas pessoas. Quem quizer pensar um pouco mais sobre essa guerra, recomendo ler o livro de J. M. Coetzee, “A vida dos Animais” e se desconstruir com os argumentos de Elizabeth Costello.

Disso tudo, a questão é que não precisando mais sair em busca de novos locais de permanência, já que suas necessidades eram supridas pelas suas práticas de doma da “natureza”, há a criação, do que hoje vemos, mas que não deveria existir da forma que existe, de lixões nas proximidades dos agrupamentos humanos. Mesmo eles escolhendo locais longe para manter seus resíduos, uma hora ou outra, devido ao crescimento populacional, se viam próximos aos locais que eles queriam manter-se afastado. E isso ocorre até os dias de hoje.

Logo, a história humana, é muito mais sobre a forma como melhoramos o empreendimento de contaminação do planeta, do que qualquer outra coisa. Mas não pensemos que o lixo, é problema em si, pois não é. A questão não é bater na tecla de reciclar o lixo, não deve ser somente isso, porque tudo isso é a meu ver modismo. E uma hora acaba ficando monótono, se já não ficou. Quem diga os adeptos da educação ambiental, que muitas das vezes, restringem apenas a pensar em lixo e esquecem de pensar sobre outras formas de problemáticas. Parece que a catástrofe é o lixo, e somente ele, acabando com ele, reciclando, reaproveitando, reutilizando, tudo está bem. Mero engano. O problema é muita mais complexo, por isso a denominação de Antropoceno, a época do homem.

Isso porque, desde que a doma da “natureza” foi possível, o mundo com era ontem, não vai ser mais o mesmo amanhã. Antes eramos apenas mais um agente biológico, assim como os pássaros, peixes, os ornitorrincos… Mas esses seres não saíram por ai, construindo prédios, pontes, usinas nucleares, perfurando poços em busca de petróleo. Aí é que repousa nosso empreendimento antropocêntrico, na transformação da paisagem terrestre, tal como fazem os terremotos, vulcões, tsunamis… São essas equiparações de agência na terra que nos levaram a também, ser considerado um agente geológico.

Claro que não são todos os seres humanos que se transformaram nesse tipo de agente, não os ribeirinhos, não os indígenas, não a maior parcela da população. Mas claro que temos parcela de contribuição. E assim como na política, não devemos apenas ver a outra ponta do problema, os políticos, temos que pensar em nossa responsabilidade nisso tudo. Ora, hoje vivemos nos tempos de catástrofes socioambientais, causados justamente pela política medíocre que nós escolhemos.

E tanto faz se for deste ou daquele lado, vivemos no Brasil, mas parece que há uma guerra. Eu não reconheço a política enquanto politicagem, justamente o que está acontecendo no país. E nós continuamos a tentar sobreviver nesse tempo de catástrofes. Não sei se é o fim dos tempos, ou pelo menos do mundo que conhecemos, mas como Eduardo Viveiros de Castro fala, se quisermos saber como é sobreviver ao fim do mundo, as melhores pessoas quem podem nos responder são os indígenas. Seus mundos já foram destruídos, e hoje são refugiados nesse campo de guerra chamando Brasil.

Quando Stengers escreveu seu livro, não sei ao certo o que ela estava pensando. Mas ela diz que quando se fala em catástrofe, fala-se em tempos depois de uma turbulência, ou seja, estamos sobrevivendo no/do que sobrou de outros tempos, tempos bons e ruins, mas apenas sobrevivendo. Até quando, ninguém sabe. 

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