Denilson Baniwa será destaque no XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

Denilson Baniwa será destaque no  XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

O Amazonense da cidade de Barcelos (401 km de Manaus), Denilson Baniwa é um dos convidados do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e participará da X Aldeia Multiétnica, que este ano traz o tema “Comunicação, saberes tradicionais e novas linguagens”. 

Denilson Baniwa é publicitário, articulador de cultura digital, ilustrador, diretor de arte, comunicador, web ativista, artista gráfico e ativista dos direitos indígenas. É também, ao lado de Anápuáka Tupinambá e Renata Tupinambá, um dos coordenadores da Rádio Yandê, que nasceu em 2013 da necessidade de criar mecanismos de propagação da cultura indígena fora das aldeias. Sua missão é difundir a cultura indígena com a ajuda da velocidade e o alcance da tecnologia e da internet. Com isso, incentiva novos correspondentes indígenas no Brasil e constrói uma forte comunicação colaborativa que desfaz antigos estereótipos e preconceitos formados pela falta de informação de veículos de comunicação não-indígenas. “Nossa maior dificuldade é mantê-la funcionando diariamente, ininterruptamente, 24h por dia, sem ajuda financeira nem apoio de patrocínios. Cada dia é uma vitória”, explica Denilson. “Achamos que cumprimos nossa missão ao saber que, hoje, vários indígenas que nunca tiveram voz nem espaço podem mostrar sua música. Da mesma forma, por conta da Yandê, notícias que nunca sairiam da escuridão chegam à ONU e aos diretores dos Direitos Humanos”.

Nascido em 1984, na aldeia Darí, conhecida como Barreira, em Barcelos (AM), à beira do Rio Negro, Denilson participou de uma oficina de comunicação e multimeios em São Gabriel da Cachoeira (AM), em 1999, quando trabalhava como articulador indígena na área administrativa da ASIBA (Associação Indígena de Barcelos). Desde então, tornou a comunicação uma das rédeas de sua vida. Pegou firme e realizou grandes ações. Nos anos 2000, se uniu a outros indígenas na criação de rádios piratas e comunitárias para atender às populações indígenas da periferia de Manaus. Como comunicador indígena, diz que seu objetivo é provocar nos jovens a vontade de criar seus próprios meios e formatos de comunicação. “Se daqui a alguns anos eu ver jovens indígenas ocupando espaços em rádios, na TV, no Youtube, em jornais, revistas e blogs, estarei realizado”, diz.

A uma semana da Aldeia começar, os organizadores do  XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros adiantam uma entrevista para mostrar o quanto temos a discutir de 15 a 22 de julho, na Chapada dos Veadeiros. Confira!

ECTCV – Qual é a importância da comunicação como ferramenta de fortalecimento da identidade e cultura indígenas?
DB – A importância é maior do que temos conhecimento. Entendo que só saberemos o que irá mudar de verdade daqui a alguns anos. No momento, a comunicação está sendo importantíssima em divulgar casos de violência nas aldeias, seja por latifundiários ou madeireiros, na mesma medida em que está aproximando os povos. Essa aproximação está fortalecendo o movimento indígena e reafirmando nossa presença no Brasil.

ECTCV – Como você define Etnomídia?
DB – Etnomídia é o contrário de mídia de massa. Enquanto os meios de comunicação de massa, a indústria cultural, definidos pela Escola de Frankfurt, são voltados a deixar o conteúdo padronizado, acessível e entendível a todos, a etnomídia é dirigida a um público específico e com características mutáveis a cada cultura. Ou seja, o conteúdo não é entendido se você não faz parte daquele ambiente ou se não busca entender o ambiente onde a mídia acontece. Desta forma, há uma provocação para que se busque entender o outro e compreender que não há motivos para manter uma mídia de massa, mas sim aquela que busca a diversidade. A etnomídia é um fenômeno recente. Ela cresce a cada dia e, infelizmente, ainda não podemos medir seu desenvolvimento, até porque ainda não há possibilidades para isso no Estado. O que podemos ver são exemplos em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a etnomídia cresceu a ponto de a informação e a interação entre os povos ser quase instantânea.

ECTCV – O que está sendo feito na área atualmente?
DB – No momento, vejo que cada povo está criando seus próprios meios e plataformas. A isto nominamos etnocomunicação, na qual cada povo estabelece seus próprios formatos que atendem às suas necessidades. No Brasil, além da Rádio Yandê, estão presentes blogs, sites e comunidades virtuais atuantes no sentido de dar visibilidade e fortalecer a identidade indígena.

ECTCV – Qual seria o “futuro ideal” da comunicação indígena?
DB – O futuro seria uma comunicação integrada, na qual os povos pudessem criar redes autônomas, ao mesmo tempo em que a informação seja circular e reutilizada em qualquer lugar, com autonomia para adaptar a comunicação de acordo com cada aldeia e, mesmo assim, continuar válida.

ECTCV – Qual é sua opinião sobre a cobertura jornalística da grande mídia frente às questões indígenas?
DB – A grande mídia, por ser de massa, não está interessada em criar debates nem provocações na sociedade, então ela mostra o que lhe dá dinheiro e apoio para continuar alimentando sua máquina. Por isso, indígenas nunca serão mostrados de forma favorável nestes meios. É tolice pensar que um dia uma grande emissora de televisão mostrará em suas telas indígenas que não sejam vilões ou caricatos.

ECTCV – Qual seria a cobertura jornalística ideal de não-indígenas sobre as questões indígenas?
DB – Seria aquela que em vez de o repórter entrevistar um antropólogo, entregasse o microfone a um indígena. Aquela que em vez de servir aos grandes latifundiários, desse também voz aos pequenos produtores.

Conheça melhor o trabalho de Denilson Baniwa em radioyande.com e denilsonbaniwa.com.br

Fonte: XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros