A Pesca Artesanal do Caboclo Barcelense e do Rio Negro


ANZÓIS

O CANIÇO e LINHA DE MÃO – o caniço é a conhecida vara de pescar, feita preferencialmente com madeiras flexíveis e resistentes. O uso do caniço – ou somente a linha na mão do pescador – é muito eficiente para quem conhece bem o local e seu potencial. Em geral realizada quando o pescador está na canoa ou no porto da comunidade.

O ESPINHEL, também conhecido como espinhelão, é usado para pescar todo tipo de peixe e também quelônios (bichos de casco como tartarugas, cágados e jabutis), variando o tamanho do anzol de acordo com o tipo de pescaria. Quanto menor o anzol, maior o número que o identifica.
O espinhel é mais usado para a pesca de peixes lisos, nos igapós e nos rios, em locais mais fundos e onde há correnteza, com objetivo de pegar os peixes maiores, as feras. Ele é preparado pelo pescador em duas etapas: a sustentação principal é uma corda, em geral de número 5 chamada de “estiradeira”, com pesos hoje feitos de concreto e pedaços de ferro, amarrados nas duas pontas, conhecidos como “poitas”, para manter a estiradeira submersa no fundo do rio. A partir das poitas sobem duas linhas com boias grandes, geralmente feitas de madeira leve chamada molongó, garrafa pet ou isopor e amarradas no final, para que o local do espinhel seja identificado na superfície da água. Na estiradeira são amarradas outras cordas, que variam de 40cm a 1 metro, chamadas de “estrovo”, onde estão amarrados os anzóis.
O pescador prepara o espinhel antes de armá-lo no rio, colocando uma isca em cada anzol. Ele primeiro joga uma poita, levando uma das pontas da estiradeira ao fundo do rio, e rapidamente vai atirando os estrovos garantindo que a estiradeira fique esticada. Então lança a segunda poita, terminando o processo.
Em geral o espinhel é colocado pela manhã e verificado na hora do almoço. Primeiramente uma poita é puxada e em seguida a estiradeira é esticada aos poucos para verificação de cada estrovo. Após a retirada do peixe fisgado, é colocada nova isca e os estrovos vão sendo devolvidos ao fundo do rio para uma nova  pescaria. O pescador pode repetir o processo para que haja iscas também durante a noite.
Quando o objetivo é pescar bichos de casco, o espinhel é usado no meio dos lagos e no remanso de praias. Nesta pescaria ele possui um maior número de anzóis, também menores, e estrovos mais compridos, porém com linhas mais finas. As iscas para bichos de casco são em geral frutos: palmito, ingá, banana e outros, mas às vezes se usa pedaços de peixe. As boias são menores para não chamar a atenção de jacarés e o espinhel é atirado de forma que não fique esticado, com as poitas mais próximas, para permitir que o bicho de casco fisgado suba à superfície para respirar.  Nesta pescaria – de quelônios – o espinhel precisa ser verificado com maior frequência, pois ao fisgar 2 bichos de casco, eles deslocam o espinhel para próximo da superfície ao boiar, impedindo que outros encontrem as iscas restantes.

O ESPINHELINHO é uma variação do espinhel, usado para a pesca de peixes de escama. Os anzóis são pequenos (em geral número 16, o mesmo tamanho usado para bichos de casco), uma vez que estes peixes – pacu, aracu e piranhas – são menores e, portanto, têm menos força. Sempre usado no inverno, nos igapós, o espinhelinho é amarrado diretamente em árvores finas e flexíveis que se movimentam quando o peixe é fisgado, sem que arrebente a linha. A estiradeira não possui poitas, ficando próxima à superfície da água. As iscas mais comuns para pescar aracu e pacu são minhocas, aranhas e careca, um pequeno fruto.

O ANZOL DE ESPERA é semelhante ao estrovo usado no espinhel, sendo mais comprido e com uma corda mais grossa (de 2 a 3 mm), ele é amarrado sozinho em um galho flexível na beirada do rio. Não possui poita ou boia. É usado à noite para fisgar peixes lisos: pirarara, piraíba e surubim. As iscas comumente utilizadas são pedaços de peixes: mandi, aracu e outros.

O CAMURIM é usado em lagos para pesca de bichos de casco e no leito do rio para peixe liso. É uma boia, feita de madeira molongó (leve), na qual está presa uma corda de aproximadamente 3m com um anzol na ponta, também pequeno (número 15). Ele é mais utilizado solto no lago, mas pode também ser usado em rios e, nestes casos, a corda é mais comprida e com uma poita de chumbo para segurar o anzol no fundo do rio.

A PINAUACA é uma isca especial armada numa vara e linha. A linha é forte, semelhante à do espinhel. Nela são bem amarrados dois anzóis, de número 7 a 10. Acima do anzol é amarrada uma espécie de isca-enfeite que ganha movimento em contato com a água. Ela serve para chamar a atenção dos peixes. Antigamente eram usadas penas de arara. Hoje, os poucos pescadores que ainda conhecem essa técnica, usam tecidos coloridos.
Preferencialmente usada em pescarias de igapós e em áreas de galhadas e troncos de árvores, na beira de algumas comunidades, o principal peixe fisgado é o tucunaré. A pinauca inspirou outro apetrecho conhecido  como puxa-puxa, uma isca-enfeite constituída com tiras de sacolas plásticas, mais usada nos lagos no período da seca, sendo arremessada com movimentos constantes para atrair o peixe.

A caça ou pesca de quelônios para comercialização é proibida no Brasil, mas o consumo pelas populações indígenas e tradicionais é reconhecido e permitido pela legislação.

ARMADILHAS

O CACURI é construído com talas de paxiúba, uma palmeira que permite confeccionar varas compridas e de uma mesma espessura com maior facilidade. Essas varas são usadas para criar uma espécie de paredão: duas paredes em formato “V”, a favor da correnteza, para segurar o peixe ou bicho de casco que sobe o rio, o forçando a entrar na armadilha e aprisionando o peixe. O cacuri costuma ser construído no começo da enchente, em entrada de igarapés, próximo a barrancos e entre pedras: lugares de passagem dos peixes onde a força da água não vai deslocar a armadilha. Há cacuris de até 4 metros de altura ou profundidade. Os peixes mais pescados são: mandi, aracu, surubim, mandubé e outros. A armadilha também serve para bichos de casco, em geral cabeçudos, nesse caso sendo preparada preferencialmente na cheia, em igapós próximos de restingas, que são áreas menos profundas de aproximadamente 1,5m. Nessa armadilha o pescador pode usar a zagaia ou entrar na armadilha para selecionar os peixes que irá consumir.

O CACURI para a pesca de peixes ornamentais é uma armadilha usada em lugares onde o pescador não pode chegar com a sua canoa, onde há as chamadas galhadas e espinhos. É feito com uma tábua mais pesada na parte debaixo e um arco de madeira com suporte superior para o pescador segurar o apetrecho.
Telas são costuradas nas laterais, formando uma espécie de caixa aonde é colocada a isca para atrair os peixes pequenos, conhecidos como piabas, especialmente o cardinal (Paracheiroidon axelrodi ). As piabas são armazenadas em viveiros armados em áreas de água corrente ou diretamente nas bandejas de plástico onde serão transportados por via fluvial à capital, para exportação.

O MATAPI era uma armadilha muito utilizada pelos pescadores antigos, especialmente para capturar os peixes: pacu, aracu, traíra, acará, entre outros. Sua pesca é feita quando o rio está começando a secar, quando aparecem pequenos pedaços de terra que formam passagens de água apenas nos paranãs, lagos e igarapés. Assim, o matapi é colocado na boca dessas passagens, contra a correnteza, para que o peixe entre e não consiga sair. Ele é confeccionado com talas de paxiúba de aproximadamente 1,5m de comprimento e com o cipó ambé, fibra usada para tecer uma corda que entrelaça as talas com uma distância média de 4cm, dando o formato de um cone. Poucos sabem fazê-lo, é mais utilizado no alto rio Negro, uma vez que seu uso também é favorecido pelas pedras e cachoeiras.

INSTRUMENTOS DE ARREMESSO

A ZAGAIA é uma vara de aproximadamente 2 metros de comprimento, pesando até 3 quilos, com uma lança de aço com 3 pontas repletas de pequenos ganchos para prender o peixe. É usada para pesca de arremesso e para faixear, pesca conhecida também como “focagem”, feita hoje com auxílio de uma lanterna ou holofote conectado em uma bateria, a fim de encontrar o peixe à noite e arpoá-lo.

O ARPÃO funciona da mesma forma que a zagaia, mas possui uma ponta única, com uma espécie de alça lateral que fisga o peixe. Na outra extremidade, na haste, é
amarrada uma corda de aproximadamente 20 braças (quase 35 metros), com uma espécie de boia ao final para não perder o apetrecho, quando este for arremessado. Muito utilizado para peixes lisos, feras e pirarucu.

O JATICÁ assemelha-se a uma lança, lembra um arpão. É feito com uma vara de madeira longa e uma ponta de aço forte, sem ganchos, para poder fixar no casco de quelônios. Uma vez arpoado o bicho de casco, a ponta fica presa nele, e a corda que prende a ponta à haste de madeira se solta permitindo que ele seja puxado.

O ARCO E FLECHA é um apetrecho pouco usado atualmente. O arco é confeccionado a partir de uma madeira flexível para ser curvada ao amarrar a corda, em geral tecida de algodão ou fibra de tucum, ligando uma ponta à outra. A flecha é feita a partir de uma árvore de caule e galhos finos, preferencialmente. Sua ponta é preparada para que uma espécie de arpão seja inserido, amarrado com uma corda e depois feito um acabamento com breu ou cera de abelha. É mais comumente usado em lagos, no verão, onde se pesca traíras e acarás e nos igapós, no começo do inverno, quando os peixes estão fazendo a piracema. Os mais procurados são tucunaré, pacu e aracu.

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