Qual é a Ética na Conservação da Biodiversidade?

Qual é a Ética na Conservação da Biodiversidade?
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A questão ambiental

Ribeirinhos indo e vindo por sua estrada.
Ribeirinhos indo e vindo por suas estrada.

No que concerne a discussão para compreender a problemática ambiental, seus contextos, sujeitos e desdobramento, o único fato que se pode afirmar é que a análise que for feita, sempre terá um viés etnoantropocentrico. Isso nos leva a pensar o seguinte: até que ponto, ou se há um ponto a partir do qual, é possível realizarmos tal debate que não tenha como plano de fundo, as nossas necessidades de sobrevivência no planeta? Será que dá para não sermos antropocêntricos em nossas conservas, planos, estratégias, ideias, pesquisas, ativismos e por ai a fora?

A coluna que o leitor, neste momento ocupa-se em ler, é a meu ver uma fratura no cotidiano das leituras diárias, pois não há como não mencionar que a atual situação do país não é a melhor que imaginávamos. Somos marcados por um governo interino que mesmo com o discurso de unidade, apenas reforçou o fanatismos político, diga se passagem o atraso do país, cortes em diversos setores da sociedade, paralisações e ocupações de instituições, economia em choque, política com tudo o que é de deplorável e tantas outras situações que provavelmente o leitor crítico tem acesso.

E em meio a tudo isso, onde fica a questão ambiental? Será que há espaço para essa discussão?

A reposta é lógica, sim. Pois é da nossa vida que estamos falando. Mesmo assim, o que quero apresentar se resume a dois termos em conexão: a conservação e a ética.

 

Recapitulando …

A discussão que se apresenta nestas linhas, perpassar o entendimento de que estamos vivendo em um cenário com script apocalíptico, que a meu ver não está nos seus primeiros capítulos. Há quem diga que possa ter iniciado na primeira Revolução Industrial ou com a política expansionistas na época das grandes navegações, outros vão mais no passado e citam a Revolução Neolítica (10-12 mil antes do presente), quando houve a instrumentalização dos bens comuns, em especial pela domesticação de animais e plantas. Mas há também quem diga que o fim, esteja apenas começando, daria até para datar, e ela seria os eventos pós segunda guerra mundial. Tudo são escatologias possíveis, afinal de contas, o mundo não é mais o mesmo. O homem não é mais o mesmo agente biológico de antes, mas sobre isso falarei em outro momento.

 

Os maias estavam errados?
Os maias estavam errados?

Mas independente de começado ontem ou à 12 mil anos atrás, o que há de comum nessas perspectivas é o cenário de degradação ambiental e com ele, tem-se paralelamente, iniciativas que tentam ao mínimo mitigar seus efeitos, seja no desmatamento e na defaunação. Mesmo com todo o empenho humanos, aparentemente solução nos parece sumir ao horizonte a medida que avançamos na história. Então para abraçarmos a situação ambiental atual, é necessário antes falarmos das ações humanas que precederam esse cenário em voga, em especial a conservação da biodiversidade na Terra.

Um pouco de história

Ao longo da história o ser humano vem se posicionando de diversas formas quando a questão é sua relação com o ambiente e sua conservação, isso nos leva a pensar que houve a há conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral individual, grupal e social, ou seja, formas distintas de ética1. Inicialmente, temos como esforço no sentido de combater a perda de ambientes naturais e seus componentes biótico e abióticos foram registradas pelos norte-americamos, quando estes fizeram ou melhor, criaram as primeiras áreas protegidas, com o objetivo de manter a salvo o status cênico da natureza2. No entanto essa prática que no início foi vista como salvadora, com o tempo foi ruindo, pois seu caráter intervencionista não levou em consideração que além das espécies animais não humanas e vegetais, ali também viviam pessoas, comunidades inteiras. E longe de poder ajudar pessoas e ambiente, apenas colocou-as em lados opostos, e ficou conhecida como a Ética da Preservação Romântica Transcendental desenvolvida por John Muir (1838-1914)3. Nesse primeiro momento, a ética estava em torno de uma abordagem preservacionista romântica, que deram lugar a Ética da Conservação do Recurso de Gifford Pinchot (1865-1946) e depois a Ética Ecológica da Terra por Aldo Leopold (1887-1948). E com isso foi necessário o debate que se arrasta até hoje, que é a diferença e relação entre os termos conservação e preservação.

Inicialmente, a noção de conservação nos remete a palavra conservationis do latim que significa “ação de conservar, preservar e manter”, que também tem relação com verbo conservare, que quer dizer “conservar, respeitar4. Isso quer dizer que manter um ambiente conservado significa preservar todos os seus componentes em boas condições, ou seja, ecossistemas, comunidades e espécies5. Já a preservação, pressupõe criar ou manter áreas naturais e protegidas sem ocupação humana, mantê-las “intocadas pelo homem”2,6. Essa última, realça o “mito da natureza intocada”2, o que em relação ao nível tecnológico atual não existiria, pois não há lugar na superfície terrestre que os satélites que orbitam o planeta já não tenha fotografados e catalogados. Por isso, minha inclinação conceitual vai no senti da conservação.

A questão agora volta-se ao como fazer a conservação, quais orientações seguir. É certo que não há um manual de instruções, mas há sim formas de minimizar o impacto, que a meu ver sempre é presente em qualquer ação humana, mesmo que haja impactos. E como podemos notar isso? No contexto amazônico, destaco duas iniciativas: o Projeto Pé-de-Pincha e o Programa Gavião-real. O que essas iniciativas têm em comum são alguns preceitos ditos éticos relativos, a exploração racional dos mesmos, aspectos técnicos, bases legislativas, participação de comunitários e princípios intra e intergeracionais. Nisso podemos citar outra vertente ética conservacionista que não é tão recente assim, mas que surgir como uma alternativa, a denominada Biologia da Conservação, que envolve tanto aspectos das Ciências Naturais (Ecologia, Comportamento, Evolução) como das Ciências Humanas e Sociais (Economia, Sociologia, Filosofia, Educação, Psicologia)5.

Na abordagem da Biologia da Conservação, as ações conservacionistas apenas poderão ter significância se as mesmas forem aspirações das comunidades locais, que levem em consideração os saberes ambientais, que sejam baseadas ou fomentem politicas públicas ambientais que se adequem a realidade que se dispõem desenvolver as ações. Já no caso do Brasil, conservar significa lidar com extensas áreas, muitas espécies, poucos recursos, e grande quantidade de pessoas sem acesso a nutrição, educação e saúde, elementos esses que complexificam ainda mais a conservação.

 Por fim…          

É fato que não há como pensar nossa relação com o ambiente e todos os seus componentes sem pensar na ética que rege a vida humana. E também é fato que vivemos em simbiose com planeta Terra e com todas as formas de vida e que nós seres humanos temos uma predisposição genética para gostar da biodiversidade, temos essa característica que pensadores chamam de um sentimento biofílico7.  E por estarmos todos juntos nesse lugar que é comum a todos, e não fugindo da implicitude do antropocentrismo, o fato é que se quisermos continuar sobrevivendo temos que optar por práticas que conservem os processos naturais, as relações com as demais espécies, a ciclagem dos nutrientes e a repartição mais igualitária possível.

 

Textos consultados

  1. SANTOS, J. J.; JÚNIOR, P.M. ÉTICA DA CONSERVAÇÃO: como é a visão de alunos da UFG? In: VIII CEB, 2007.
  2. DIEGUES, A. C. (Org); et al. Os saberes tradicionais e a biodiversidade no Brasil. MMA, COBIO, NUPAUB, Universidade de São Paulo, SP, Fev., 2000.
  3. Callicott, JB Para onde Conservação Ética? Biologia de Conservação, n.4, v.1, p.15-20, março de 1990.
  4. ENCICLOPÉDIA DA CONSCIENCIOLOGIA. Conservação da edificação Conscienciocêntrica (Intrafisicologia), 2012.
  5. PINHEIRO, M. R. C.; KURY, K. A. Conservação ambiental e conceitos básicos de ecologia. Boletim do Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego, RJ, v. 2 n. 2, jul. / dez., 2008.
  6. MENEGUZZO, I. S.; CHAICOUSKI, A. Reflexões acerca dos conceitos de degradação ambiental, impacto ambiental e conservação da natureza. Geografia (Londrina) v. 19 n. 1, 2010.
  7. RODRIGUES, E. Biologia da Conservação: ciência da crise. Semina: Ciências Agrárias, Londrina, v. 23, n. 2, p. 261-272, jul./dez. 2002.

 

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